Diário Popular - 17/09/96
Muita disposição e vontade de curtir a natureza são os pré-requisitos básicos para conhecer Brotas. Situada na região central do estado, o município tem uma inegável vocação para o ecoturismo.
São cerca de duas horas e meia de viagem, partindo da capital, até a entrada da cidade. Ela é recortada pelo Jacaré-Pepira, um dos poucos rios despoluídos da bacia do Tietê. Ele nasce na divisa entre São Pedro e Brotas, e atravessa treze municípios em um percurso de 174 km, formando cachoeiras e várzeas.
O jacaré Pepira é a maior atração de Brotas. As melhores atividades para o turismo, giram em torno do rio. Nas corredeiras o desafio é fazer Rafting, aventurando-se a descer o rio de botes de borracha. Caminhadas por trilhas levam a cachoeiras escondidas na mata. O lugar tem 35 quedas, algumas com mais de 50 metros.
Brotas não faz distinção etária para oferecer sua natureza aos visitantes. As caminhadas, em geral, leves, podem ser feitas por crianças e idosos. É preciso apenas entrar na mata com espírito despojado: você vai sujar o pé de lama, cruzar alguns trechos de água e enfrentar os mosquitos.
Aventuras mais radicais também são possíveis. Uma delas é descer com cordas
as cachoeiras. Amantes do mountain-bike encontram trilhas de terra batida.
O patrimônio ecológico de Brotas é ainda premiado com uma razoável estrutura
hoteleira e a agência de ecoturismo Mata'dentro.
O Estado de São Paulo - Viagens - 17/09/96
Reza a cartilha do ecoturismo que luxo é a palavra que não pode ser mencionada pelos aventureiros. Essa regra deve ser seguida por quem viaja para Brotas. Os hotéis são, em geral, modestos e a comida dos restaurantes, farta e barata. Os brotenses não tem uma vida noturna das mais agitadas, mas suficientemente interessante para quem quer conhecer um pouco da cultura e história do lugar: Brotas foi fundada em 1839 e faz parte desde a década de 80, do parque ecológico do rio Jacaré Pepira. A cidade ainda conserva alguns casarões construídos na época áurea do café, nos anos 20. Com a crise, dez anos mais tarde, a região passou por um período de decadência, e até de êxodo rural. Sua população caiu de 20 para 11 mil habitantes.
Hoje parte dos seus 14 mil habitantes se dedica às pequenas propriedades e ao cultivo da cana e da laranja, além da pecuária. O ecoturismo começou a ganhar atenção dos brotenses no início dos anos 80, quando foi formado um consórcio com treze municípios da região para a preservação de seu patrimônio ecológico. Brotas tem áreas de 106.000 hectares e é o sexto município em extensão no estado. Os paredões de rochas onde se fornam as cachoeiras, espalhados por toda a cidade, são os aspectos mais marcantes da geografia do lugar.
A descoberta de sua vocação turística, como ponto de parada de ambientalistas, permitiu à cidade preservar grande parte de sua natureza. As fazendas são obrigadas a manter as matas nativas, segundo determina a legislação. Os resultados são as águas puras do jacaré Pepira, próprias para o banho e passeios rio abaixo.
O céu claro da região, a lua que reluz no Jacaré Pepira, um pouco de
aventura ecológica, a tranqüilidade da cidade e a hospitalidade dos
brotenses são convites mais que suficientes para os turistas.
O Estado de São Paulo - Viagem - 17/09/96
Não é injustiça creditar ao rio Jacaré Pepira os méritos de Brotas ter tantos atrativos naturais. Mas pode se dizer que Brotas está colhendo o fruto que cultivou. Em 1986, o prefeito da cidade reuniu os representantes de todos os outros municípios banhados pelo Pepira e propôs a criação de um consorcio intermunicipal de preservação ambiental do rio. Graças a essa iniciativa, o Jacaré Pepira pode sustentar hoje o slogan do único rio totalmente preservado dos afluentes da margem direita do Tietê.
Os municípios participantes desse consórcio ecológico adotaram medidas de fiscalização para despoluir o rio e recuperar a vegetação de suas margens. Cada cidade participava do consórcio pelo seu Condema ( Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente). Órgãos como a CESP e a CETESB contribuíram técnica e financeiramente para o projeto.
Algumas medidas simples foram adotadas, como a fixação de distância mínima de 400 m entre o rio e as plantações, o desenvolvimento de trabalhos de educação ambiental com a comunidade e a orientação, por parte de técnicos, para os proprietários de terras banhadas pelo Jacaré Pepira, de como preservar a mata das margens.
Um dos itens fundamentais do projeto de preservação do Jacaré Pepira foi o
reflorescimento das margens do rio, com a recuperação da mata ciliar.
Estudantes e pesquisadores da USP, Unicamp e Unesp fizeram um trabalho de
mapeamento e catalogação das espécies naturais da mata. Mudas e sementes
dessas espécies, disponíveis em outras matas semelhantes, foram
posteriormente replantadas nos trechos desmatados, seja por agentes
naturais, seja pela influência do homem. Resultado: com a recuperação da
mata primitiva, grande parte da fauna que havia desaparecido começou a
reaparecer.
Jornal da Tarde - 29/09/96