Clique no Brucutu para conhecer melhor o projeto Figueira da Glete. Grupo Figueira da Glete
Turmas da Glete

Geologia da USP
Álbum da Turma de 1961
Excursão à Fazenda Ipanema, Varnhagen, Sorocaba, SP.

Sedimentologia, levantamentos topográficos e geológicos.
Orientador: Professor Sérgio Estanislau do Amaral (julho de 1960)

Clique nas fotos para ver sua versão ampliada, e informações adicionais.

Estágio em Ipanema


Reminiscências confidenciais do Professor Adonis... Será o caso de uma CPI?

Realizado durante o mês de julho de 1959, quando cursávamos o 2º ano. Lembro-me que uma das finalidades era fazer levantamentos topográficos. Devia ter alguma coisa de sedimentologia (presença do Serjão) e de geologia econômica (associada ao fato histórico de exploração de magnetita para abastecer as aciarias responsáveis pela fabricação de armas durante a revolução constitucionalista de 32). O fato é que entre outros professores, três ficaram na lembrança devido aos fatos ocorridos durante o estágio: Henry Mau, Gene E. Tolbert e o nosso querido Serjão (Sérgio Estanislau do Amaral).

Nos preparativos para a viagem o Prof. Mau avisou a turma que era expressamente proibido levar bebidas alcoólicas para o estágio. Parece que ele não queria saber de estrepolias da Turma do Sereno. Acontece que nós ficamos sabendo que o local era isolado, distante de Sorocaba e que não havia nenhum boteco perto para matar a sede no fim do dia.

Ainda bem que não houve revista das malas. O que apareceu de garrafa de pinga com a abertura das malas não está escrito no gibi.

Ficamos alojados num casarão enorme com vários quartos de grandes dimensões de forma que os mesmos foram ocupados por mais de quatro pessoas em cada um.

Num deles, ocupado pelo casal Garcia (Osmar e Diogo) entre outros foi montada a “base de operações”. Acontece que assim que desembarcamos do ônibus observamos a existência de uma plantação de citrus com limoeiros carregadinhos e no ponto de colher os frutos. Daí veio a idéia da “operação caipirinha” que para ser complementada foi seguida de uma operação “afana” de açúcar na cozinha. Tudo estava sendo organizado debaixo de segredo com medo que os puxa-sacos dedassem para os professores...

Logo no inicio do estágio, numa excursão para coleta de limões, o grupo surpreendeu o Prof. Sérgio com um estilingue esticado apontando para a lâmpada de um poste de iluminação existente nas proximidades. Disse ele que estava “treinando pontaria”.

Na turma tinha alguns “caipiras” criados no interior e portanto tendo utilizado estilingue durante a infância, entre os quais eu (Adonis), Osmar e Waltir. Fomos desafiados pelo Professor para um concurso afim de checar quem tinha melhor pontaria com o estilingue. Em jogo uma dúzia de cervejas para cada um. Basta dizer que passamos todos a pagar cerveja para o Serjão, que ganhou fácil as apostas. Terminado o estágio, levei quase um mês para quitar a divida (lembrem-se, a grana de bolsista era meio curta).

Só depois é que ficamos sabendo do milagre: como é que um “caipira” da capital poderia saber usar o estilingue melhor que um autêntico caipira do interior. O próprio Prof. Sergio nos contou que tinha um “Estande de Tiro” em sua residência situada no bairro de Pinheiros a qual dispunha de um grande quintal.. Aproveitando as lâmpadas queimadas (ele recolhia toda e qualquer lâmpada na própria faculdade), colocava-as oscilando na ponta de um barbante e treinava a pontaria situado a dez metros de distância. Quebrar uma lâmpada parada já é difícil, imagina a dita cuja oscilando...

Depois dessa , querendo saber para que queríamos tantos limões e tendo em vista o boa praça que ele sempre foi, acabamos confessando o “crime”!. Foi o primeiro freguês de fora a frequentar o Clube da Caipirinha!

Enquanto durou o estágio, tínhamos um ritual sagrado. Após o banho, antes do jantar o quarto do casal Garcia ficava lotado com a turma de bebedores de caipirinha.

Não demorou muito para que o “sumiço” da turma desse na vista. Um belo dia um dos colegas (da turma dos puxa-sacos) praticamente invadiu o quarto e deu o flagra na libação. O safado, achou ruim porque não tinha sido convidado e foi dedurar o fato para os professores.

No dia seguinte, enquanto estávamos reunidos aparece o Prof. Tolbert para verificar se a denúncia era verdadeira. A turma ficou de cabelo em pé esperando a bronca... E a convite do Prof. Sergio que era freqüentador assíduo, lá foi ele experimentar uma caipirinha preparada com todo o carinho para o mesmo. A partir desse dia, virou freguês habitual... Bronca não houve, mas conseguimos saber o nome do denunciante.

No dia seguinte, logo após o almoço, enquanto discutíamos o “castigo” a ser dado ao dedo duro, o Diogo percebeu que o ônibus estava saindo para Sorocaba para comprar mantimentos ou outra coisa qualquer para os professores. Saiu correndo para conversar com o Mauro, o grande Mauro, motorista do ônibus. Retornando em seguida, disse para a turma que já estava preparado o troco...

Alguns dias depois, conseguimos que o dedo duro comparecesse à reunião das caipirinhas. O Diogo se encarregou de preparar uma “especial” para o mesmo, misturando no copo quase meio vidro do remédio chamado “A Saúde da Mulher” o qual era utilizado para regularização de menstruação feminina. O cara tomou o copo inteirinho sem perceber nenhum gosto diferente (pelo jeito não era bebedor de caipirinha)

Dali a dois ou três dias, o “remédio” revelou alguns efeitos na cobaia masculina!  O camarada ficou cheio de calombos doloridos pelo corpo...

 

Outro fato que me marcou muito neste estágio é que no fim do mesmo passei a sentir umas dores estranhas na barriga e nas pernas. Talvez pelo esforço em subir e descer morros, sei lá.

Chegando em minha cidade, Ribeirão Preto, como as dores continuassem minha mãe me levou à um médico seu conhecido. Diagnóstico do mesmo: apendicite. Que merda!

Não tinha dinheiro para pagar a cirurgia! Aí o médico me apresentou um outro médico que também morava nas vizinhanças e que atuava na área de psiquiatria. E me vieram com a proposta: fazer uma experiência de realizar a cirurgia sem anestesia usando o técnica de hipnose, assim eu não teria custo nenhum, nem de médico nem de internação hospitalar. Não tinha remédio! Aceitei o desafio...

Durante uma semana, ia todo dia ao consultório do psiquiatra para treinar “dormir”. E o negócio funcionava mesmo. Era só sentar na cadeira e o médico dizer uma palavra (a qual fui condicionado a não me lembrar) e eu caia num sono profundo.

Resumindo, era fim do mês de julho e lá fui eu para o hospital afim se ser submetido à cirurgia de apendicite. Lembro-me de ter tirado as roupas, vestido uma bata branca e deitado na cama do hospital. Com a chegada dos médicos e a tal de palavra mágica sendo pronunciada pelo psiquiatra, eu apaguei.

Acordei com uma baita luz forte brilhado na minha cara, com um espelho circular acima da mesma por meio do qual eu consegui visualizar minha barriga cortada e o médico puxando e cortando uma tripinha...

Ao lado, desesperado, o psiquiatra dizendo Tabu....Tabu...Tabu. E nada de eu voltar a dormir. Foi aí que fiquei sabendo da palavra mágica para mim dormir, a qual nunca mais funcionou...

Conclusão: tive que agüentar o médico me puxando as tripas, o corte do tal de apêndice que se revelou uma tripinha insignificante, esquálida sem nenhum sintoma de inflamação e a costura do corte apenas com uma anestesia local.

Já vão saber o porque de eu ter incluído esta história!

No início do curso de Geologia eu tive uma bronca danada com o Prof. Josué Camargo Mendes que era responsável pela distribuição de bolsas de estudo. Pelo fato de que naquele ano só existirem 36 bolsas, eu acabei ficando de fora da distribuição das mesmas apesar de ter sido aprovado exatamente em 36º lugar. O pior que o tal professor tinha destinado uma bolsa para seu amigo, o Nelson Scheinkman, filho de família abastada em São Paulo e que ainda por cima tinha sido aprovado em último lugar...Ou seja, fui injustamente passado para trás. Imaginem meu desespero pois só havia prestado o vestibular devido ao curso conceder bolsas de estudos. Não tinha a mínima condição de permanecer no mesmo sem a dita cuja.

Nunca tive bronca nenhuma com o Nelson Scheinkman, pois o mesmo sempre se revelou um grande companheiro e um emérito gozador. Minha “amizade” era  dirigida ao Coordenador das Bolsas.

Consegui permanecer na Geologia graças à solidariedade da turma, pois nem sei de quem foi a idéia, mas só sei que foi salvadora não só para mim mas pelo menos para mais dois colegas que tinham sido preteridos. Todos os bolsistas se reuniram e decidiram que a verba relativa a 36 bolsas seria distribuída equitativamente para os 40 alunos da turma. Teve nego que estava sem bolsa e se fez de pobrinho para participar do bolo (dois meses depois passou a freqüentar o curso montado numa lambreta!)

No segundo ano, como muitos colegas foram reprovados, acabei obtendo uma bolsa de estudos no meu nome.

Voltando à vaca fria. Retornei da cirurgia tendo perdido quase dez dias de aulas e sabia que isso seria suficiente para ter minha bolsa cortada, caso não tivesse uma boa justificativa.

Dirigi-me à sala do Prof. Josué para apresentar o atestado médico que demonstrava o porque de meu atraso. Foi uma cena insólita: primeiro tive que agüentar o professor zombar de meu atestado, pois o tal de médico que fez minha cirurgia era ginecologista! Ele queria saber se eu tinha operado do útero ou do ovário fazendo sua secretária e um funcionário que estava presente se dobrarem de rir. Depois passou a alegar que o atestado só podia ser falso, fornecido por um amigo e que portanto não podia aceitar minha justificativa para ter perdido as aulas.

Não tive outra alternativa: baixei a calça e a cueca deixando “tudo à mostra” para que ele pudesse ver o lado esquerdo da barriga todo coberto de esparadrapo e com uma faixa circundando o abdômen para manter o corte comprimido pois ainda não havia cicatrizado. A secretária saiu correndo da sala, horrorizada, tapando o rosto para não ver “minhas vergonhas”...

Quanto ao professor achou que eu não precisava ter apelado daquele jeito, mas acabou aceitando meu atestado e manteve minha bolsa de estudos...


The end


O responsável por este site não se responsabiliza pelo texto acima, com suas denúncias e casos escabrosos relatados, que estavam sepultados, e que podem agora, causar grandes comoções no meio geológico!